Fugindo de casa

Gabriel Mallet Meissner - São Paulo

 

 

Lembra-se de quando era criança, brigava com seus pais e fugia de casa? Fiz isso várias vezes. Você também, tenho certeza. Um dia, por algum motivo infantil, resolvi fugir. Estava saindo pelo portão do prédio, quando um amigo perguntou:

— Onde você vai, Gabriel?

— Vou fugir de casa!

Meu amigo, imediatamente foi avisar a minha mãe, desesperado:

— O Gabriel tá fugindo de casa! O Gabriel tá fugindo!

Minha mãe, acostumada com o meu hábito, respondeu tranqüila:

— Calma, ele vive fazendo isso. Daqui a pouco ele volta.

Dito e feito. Fui até a esquina, aonde havia uma banca de jornais, li uma "revistinha" (eu só lia os da Disney, na época) e depois dei uma volta pelo quarteirão. Eu conhecia cada canto daquele quarteirão, de tanto que lá eu pedia asilo, quando fugia. Obviamente que, sendo criança, não me preocupei com detalhes, como dinheiro, comida, abrigos etc. Eram frivolidades, o que interessava era a liberdade de fugir de casa.

Assim como eu, muitos fugiram de casa. Até aqueles que moravam em condomínios, cujos porteiros não os deixavam sair pelo portão sozinhos. Esses sempre davam um jeitinho e se escondiam aonde os pais não conseguiam encontrá-lo (ou aonde eles achavam que não seriam encontrados). Era como fugiam. Vai dizer que você nunca fez algo parecido?

Mas um dia os filhos crescem. E continuam querendo fugir de casa. Alguns vão fazer faculdade em outra cidade, indo morar nas caóticas repúblicas. Outros, saem de casa por conta própria, trabalhando e dando um jeito para estudar. Há ainda aqueles mais felizardos que contam com a ajuda dos pais para sair de casa, sem ter que trabalhar, ao menos num primeiro momento.

Esses atos que vemos como a conquista da liberdade são idênticos às fugas de quando éramos crianças. Normalmente tão irresponsáveis e fantasiosos quanto elas. Não viramos adultos aos dezoitos ou dezenove anos. Apenas adquirimos o know-how de como ser uma criança incrementada.

 

GABRIEL MALLET MEISSNER, 19, a ponto de fugir de casa pela quintolhésima vez.

 

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