Um presente

para a velha senhora

Publicado na edição 605 do Jornal do Cambuci & Aclimação 22 a 28 de janeiro de 1999

Marcos Gimenes Salun - São Paulo

 

Estava ao telefone, tratando de um assunto profissional, quando eu e meu interlocutor concluímos que precisaríamos agendar uma reunião para acertar alguns detalhes. Abri a agenda e vi que na segunda-feira, 25, ainda não havia nenhum compromisso. Sugeri então que a reunião fosse nesse dia, às dez horas. "Não vai dar!", foi a resposta enfática vinda do outro lado. "Onze horas, então?", eu insisti. "Não é o horário! É o dia! Esqueceu que dia 25 é feriado?"

  Eu havia me esquecido, completa e totalmente. Só depois de ter marcado outro dia e horário para a tal reunião e desligado o telefone é que me dei conta disso. Havia me esquecido do aniversário da minha cidade, e por alguns momentos isso me deixou constrangido. Lembrei-me, de repente, que foi nesta mesma cidade que nasci e vivo até hoje. Meu esquecimento foi, no mínimo, um ato de descaso com a velha senhora que me acolhe até hoje...

  Quantos anos mesmo, velha metrópole? Desculpe pela minha cabeça não se lembrar mais desse detalhe! Ela anda tão preocupada com outras coisas... Quatrocentos e tantos anos, não é? Isso nem importa tanto, pois agora me ocorre que não é só da tua idade e do dia do teu aniversário que eu me esqueci. Imagino que também deixei de te perceber como deveria, há algum tempo...

  Mas, será que seria mesmo possível deixar de perceber uma cidade? Logo uma cidade como São Paulo, que carrega consigo superlativos de toda espécie! Tudo nela é tão imenso, grande demais para que não se perceba. Não! Impossível deixar de notar esse gigantismo todo! Definitivamente impossível! Então que outro motivo teria feito eu esquecer logo do dia do aniversário dessa minha cidade?

  Fiquei pensando, cá com meus botões, que a própria megalomania da minha cidade talvez pudesse ter uma certa parcela de culpa. Digo isso porque fui acometido, de repente, por um certo entorpecimento dos sentidos, e quero que você me diga, com sinceridade, se nunca teve essa mesma sensação, mesmo que remota. Confesso: eu tenho essa sensação sempre que me pego tentando ler as indecifráveis pichações nos muros que a cidade teima em pintar de branco, de azul, de rosa... Uma marca da insensibilidade que alguém insiste em por à mostra todos os dias, na calada da noite, quando pensa que a cidade que nunca dorme, está dormindo. Violência que eu tento ler no dia seguinte, sem pensar no real significado do gesto, como se ele fosse muito natural.

  Quando tenho esses lapsos de entrevêro com minha consciência, penso também que há muita coisa mais que se pode perceber nesta São Paulo, além das marcas deixadas por quem não a trata tão bem. Se eu apenas lamentar o trânsito caótico, por exemplo, corro o risco de não reparar na beleza das muitas árvores que ladeiam as avenidas congestionadas, observando, complacentes, a minha paciência ser colocada à prova. E como tudo na cidade acontece em larga escala, é possível que eu esteja prestando mais atenção no lado ruim que ela tem, e isso esteja me deixando com um certo embotamento.

  Ah... Eu percebo a minha cidade sim! É que nem sempre eu penso nisso como poderia estar pensando. Quando ouço uma sirene, e penso apenas na violência implícita que ela pode significar, deixo de pensar na vida que poderá ser salva quando a ambulância chegar ao hospital. É certo que nem sempre se salvam todas as vidas, mas as sirenes muitas vezes pretendem ajudar a fazer isso. E, como a mania de grandeza dessa cidade revela muito mais os contingentes de pedintes dos faróis, do que seus pequenos encantos subliminares, eu continuo percebendo apenas o lado mais evidente e ruim.

  A vontade de ser cada vez maior que lateja nas entranhas desta cidade, vai fortalecendo a couraça impenetrável da indiferença, que permite apenas que se veja os papéis e o lixo atirados sobre os seus gramados, mas que não deixa perceber a exuberância verde de suas muitas praças.

Pois é! Eu fiquei divagando sobre essas coisas um bom tempo, mesmo depois de ter reprogramado a reunião, fechado a agenda e desligado o telefone. Então, eu tentei imaginar o que eu poderia fazer no dia 25, já que era feriado e não haveria reunião. Claro! Esticar o feriado fora da cidade, como milhares de pessoas estariam fazendo, transferindo o congestionamento das avenidas para as estradas. Eu costumo pensar nessas estradas como grandes rodo-veias, pois permitem que o sangue desse grande coração aflito em pulsar, que é São Paulo, corra democrática, mas nem sempre fluentemente, principalmente em feriados prolongados.

Lamento não poder comparecer à festa do teu aniversário, minha velha cidade. Como outros milhares de filhos ou afilhados teus, estarei tentando esquecer por alguns momentos de todos os teus atributos superlativos, de todos os teus contrastes mais gigantes, de todos os teus segredos mais incógnitos, de todas as tuas belezas mais escondidas, de toda a tua incontrolável vontade de crescer cada vez mais.

É pena que não poderei compartilhar contigo da felicidade que terás ao receber, como presente, menos indiferença, menos poluição e menos congestionamento, pois afinal, muitos dos insensíveis desta cidade estarão distantes. Poucos muros serão pichados nesse feriado, eu creio. Não precisarás suportar tanto desprezo, como no resto do tempo do teu diário crescer. Agora, cá entre nós, querida cidade: durante a nossa ausência, tenho a certeza íntima que te vingarás de todos os insensíveis ausentes, revelando os teus colibris, que quase não se percebe quando se está por aqui, não é?

 

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