As ratazanas

Pablo Scasso - Montevidéu - Uruguai

(Tradução: Marcos Gimenes Salun e Flerts Nebó)

 

Veja também versão em ESPANHOL

- Acaso te atreverias? - me perguntou o gordo da penumbra mais espessa do outro canto do porão. Esparramado naquela velha poltrona de couro, quase um acúmulo de sombras sem forma, 'Vozdeflauta' fazia honra ao apelido. Sua voz assobiada, de velha máscara de Carnaval me encheu de pânico. Assim começou toda aquela confusão.

Fazia alguns dias que nos escondíamos como quatro bastardas e desesperadas -pelo menos eu estava me sentindo assim - talvez dispostas a qualquer coisa para comer algo. Tinham-se passado poucos segundos que 'Vozdeflauta' havia me perguntado aquilo quando Fofy, algo trêmula e lutando com suas próprias cordas vocais respondeu por mim.

- Ele não... ele não... eu vou.

O silêncio nos engoliu de novo. Da pequena janela junto ao teto, e apesar de ainda ser dia, entrava uma luz amortecida que iluminava a silhueta amarelada de Lula. Ela era a única capaz de nos dar ânimo suficiente para poder suportar aquela umidade fria e insalubre que nos congelava até os sapatos. Mas também havia sido ela quem sugerira a possibilidade do roubo na casa do velho Lucas.

- Total - disse mastigando um pedaço de papel. - dizem que o velho ganhou todo esse dinheiro de uma forma não muito honesta, digamos. Então... 'ladrão que rouba ladrão...' E Fofy concluiu o ditado gaguejando:

- Te-tem... tem mil anos de perdão

Então, da boca de 'Vozdeflauta', e à medida que falava, uma pequena nuvem branca de vapor aparecia e desaparecia conforme a duração das frases. - Sim... Sim... O gordo mastigava com dificuldade as palavras como se já, e graças ao produto do roubo, estivesse devorando com sua boca lambuzada de gordura um daqueles hambúrgueres com cebola de que tanto gostava - e ademais Lucas era surdo. Muito surdo. Que surpresa ele vai ter quando vir seu pequeno cofre vazio... e logo, imaginem quando se olhar no espelho e se vir tão depenado como uma galinha! - então fizera um ruído com a boca, uma espécie de gargarejo que todos interpretamos como uma risada nervosa. Logo pendurei o último gancho. O tinha encontrado jogado num quintal com clarabóia, escondido entre restos de vasos, garrafas e caixotes de madeira onde se guardavam umas maçãs podres. Também havia um busto de gesso com o nariz quebrado. Dentro de toda aquela desordem tudo tinha seu lugar, mas também sentia como se as coisas houvessem ficado órfãs e sem nome para as poder chamar.

De quando em quando, como que coberta pela fumaça, surgia uma mandíbula saliente e mais atrás vinha o resto da mancha negra que Fofy tinha como cara. Parecia a caveira de um grande pássaro, uma espécie de visão nascida da fantasia de um bêbado... e isso porque já faziam dois dias que eu não bebia nem uma gota de cerveja. Aquilo dava medo, e o medo mais fome. As dificuldades eram grandes. Fazia quase uma semana que vivíamos no porão dessa casa abandonada. Na mesma noite em que Lula e eu quebramos as tábuas que tapavam a janela que dá para a Rua Durazno e pouco tempo depois de ter entrado naquele labirinto de peças com cheiro de mofo e porcaria, aquele foco de luz quebrou a noite como as frestas das paredes. De repente vimos surgir cadeiras quebradas do nada, qualquer coisa atirada no chão e justamente sobre nosso esconderijo, que percebemos ser uma velha placa verde, um cabide de madeira pendurado em um gancho e por milagre. Um par de policiais de ronda averiguava por quê e sobretudo quem havia derrubado aquela cerca de madeira. - Deve ter sido 'el Cuerda' - ouvimos que um dizia ao outro e naquele momento a escuridão se fechou sobre nós. 'El Voz' encheu as bochechas com um desses sapos de olhos grandes e arrotou. No mesmo instante voltamos a respirar. 'El Cuerda' era um pobre louco. Um desses que passam longas temporadas preso no Vilardebó (manicômio). Aí eu o conheci quando me internaram pela primeira vez. Quanta bobeira pode juntar o álcool! Mas ele era muito diferente mim. Era desses que permanece perdido, submerso em sua cabeça, dando voltas intermináveis pelo bairro. Em mais de uma ocasião havíamos dado algo do pouco e do nada que nos sobrava: um copo de vinho, um pedaço de pão e coisas parecidas.

A umidade apenas iluminada voltara a nos submergir nessa tristeza silenciosa tão somente interrompida, de vez em quando, pela tosse espasmódica de Lula depois que aspirava demasiado a bituca do cigarro - Está bem... está bem... - disse de repente 'Vozdeflauta' e logo se calou. Quem sabe não tivesse mais o que dizer, mas todos compreendemos que não era assim. Quando el gordo sumiu em seus pensamento sabíamos que algo ia acontecer. Para nós ele era uma espécie de professor da vida. - No que pensas? - animou-se a perguntar Lula. - Sim... No que pensas, gordo? - repetiu Fofy a pergunta, mas a seguir se corrigiu - Pe-perdão, 'Vozdeflauta', estou muito nervoso e além disso não suporto as queixas desta barriga... - esclareceu com sua mandíbula cada vez mais saliente, cada vez mais afunilada. - Está bem... Está bem. - repetiu el gordo e da borda da poltrona de couro velho vimos um par de mãos que se levantavam pedindo atenção. - Não há mais remédio, vamos fazê-lo. Fofy, escute-me bem. Esta noite...

2

Conta Fofy, e posso imaginar muitas coisas mais, que quando entrou na casa fazia pouco tempo que o velho Lucas estava perdido. Deveriam ser três ou três e meia da manhã. Naquele porão, mais escuro e mais frio que o gelo da noite, éramos três cabeças rodeando-o, e que não queriam acreditar no que escutavam daquela voz mais trêmula que gaguejante.

- Go-gordo, eu só fiz o que me disseste. Primeiro... Que-que terrível! É de não se acreditar... - repetia Fofy constantemente - Primeiro saltei a grade do jardim do fundo. Lo-logo trepei no muro que dá no quarto da filha louca, e aí foi quando quase caí. Quando finalmente saltei para o pátio onde está a churrasqueira, - então deteve o relato e abriu a boca, como para tomar ar e... - torci o tornozelo com tanto azar que derrubei um monte de latas vazias que empurraram uma garrafa que começou a rodar... Meu Deus! Que tumulto bárbaro! Pronto!, pensei, agora aparece o velho e tudo vai para o caralho. Para piorar, dali se via uma luz débil, como um clarão que, depois verifiquei, vinha da cozinha. Que faço?, perguntei-me. - Então... Enquanto mantínhamos silêncio, na expectativa, Lula não conteve seu caráter impulsivo e ao mesmo tempo que lhe dava um golpe no braço, conduta que tem quando fica excitada, lhe perguntou - Sim... sim... mas... E o que aconteceu, Fofy? O que aconteceu?

- Be-bem... be-bem...! Não enche, rapaz! Já vai... já vai... que ninguém é de ferro. Eu fiquei quietinho, escondido atrás de umas plantas que o velho tem e que formam um matagal. Até rezei para São Cristóvão e Santa Maria das Mercês porque é a padroeira do meu povo! - disse Fofy e nesse instante escutamos aquele grito agudo descarregando-se com impaciência. - Bom, chega. Chega! Conta, rapaz, e deixa de lado as piada. - mandou o 'Voz'. Então senti que em minhas tripas havia algo mais do que o vazio costumeiro. Aí também estava o medo. - Depois, esperei. Se pa-passaram os segundos mais longos de minha vida. O zoronca andava como louco aqui dentro, então me lembrei da minha mãe... Be-bem, já sei. Na-não fiques nervosa, Lula. Em resumo, ninguém saiu. Si-silêncio. Pouco depois, pela primeira vez ouvi o miado desse pobre gato. - Para mim mesmo e enquanto escutávamos Fofy, eu pensava: ' Deus... por que nos metemos com tudo isso? Por que?

- Qua-quando por fim abri a porta da cozinha percebi de onde vinha a claridade que vira do pátio. A porta da geladeira estava aberta completamente... iluminava uma parte do chão. Aí mesmo... deitado com toda a humanidade que Deus lhe havia dado, barriga para cima, jazia o cadáver do velho.

Mas que é isso? Perguntei-me uma e outra vez. Em poucos meses perdera tudo. O álcool tinha me dominado e agora era impossível diferenciar-me deles. O bêbado tranqüilo que não procurava problemas ficara no passado. Mas o que será agora? Em que eu me convertera?

- E então? E então? - quase gritou Lula fora de si. À minha direita também escutei um grito agudo de impaciência. O 'Vozdeflauta' não dizia nada mas também estava como eu.

- Ma-mas está morto, mulher! O velho Lucas está morto! Bem morto e com aquele gato perto de sua cabeça dando miado sobre miado. Então entendi o que havia acontecido. - Do que você está falando Fofy? - perguntei enquanto um frio na nuca, e cuja causa não era precisamente a umidade, me fez levantar os ombros. - Falo da comida do gato. É disso que falo. Como nos havia dito o 'Vozdeflauta', o velho havia ficado sozinho, já que sua filha, "a louca", esta noite saíra com seu noivo, o músico. Creio que aquilo aconteceu na hora de dar comida ao seu gato, então pá! - disse e bateu no joelho - justo naquele instante, 'Aquela que nunca pergunta' o levou para sempre. Ali ficou seu corpo. Pa-parecia um boneco, a camisa fora das calças e os olhos bem aberto... A pri-primeira coisa que fiz foi fechar aquele olhar assombrado. Depois terminei o que ele ia fazer. Me senti obrigado com o animal. Eu-eu que sei... - terminou Fofy desacostumado com tanta emoção.

- Mas Fofy... Que dizes? Escuta-me. A única coisa que fizeste foi dar de comer para esse bicho? - ouvimos a voz de Lula que terminou sua pergunta com um grito afogado e seus dentes rangeram de raiva. - E essa bolsa é tudo o que trazes? Comida para gatos...! Que nojo! - disse, levantou a mão e se sentou na escuridão. Em seguida todos a imitamos. Passamos a noite acordados, sem falarmos, até de madrugada. Ao meio-dia ouvimos a sirene da polícia e um alvoroço de pessoas perto da casa do velho Lucas.

 

 

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